Nem um deus. Nem um mortal
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Uma singela homenagem ao grande Doom

Quarta-feira, Agosto 11, 2004


Tempo

Uma noite fria e escura. O mar está intrepito, algoz, feroz. A brisa está fria e gélida. O Salitre impregna o ar. É uma noite típica de um inverno em uma cidade litorânea. Com tantas coisas adversas sobre uma noite, que por incrível que pareça, está calma. Ele caminha pela calçada da orla de sua cidade.

Dez horas, Onze horas da noite. O tempo é apenas mais um apetrecho sádico do destino. Nada importa, apenas seu caminhar é importante. Sua mente briga para parar de pensar em coisas alheias, inertes, lastimáveis. Ele briga para sua mente não criar bloqueio e barreiras sobre as mais diversas imagens, textos, falas, ocasiões e acontecimentos do passado.

O passado é algo imutável, com o qual ele lamenta diversos acontecimentos. Os recentes são o que mais incomodam. Então pensa no tempo e lembra de uma frase de Merlin: "O Tempo é a chave de tudo". Ele se aquieta ao pensar nisso e continua a andar na calçada da praia. Até que resolve tirar seus sapatos pesados e andar descalço na areia. A areia fofa, úmida, fragmentada. Algo muito semelhante a uma parte dele. Ele caminha em direção ao mar, olhando atentamente para o longínquo horizonte negro que abraça a praia naquela noite.

Ele sorri quando a água toca nos seus pés. Sente uma leveza no corpo, principalmente no coração. Seu coração se acalma. Ele fecha os olhos e descansa a cabeça para trás, sente a brisa no seu rosto. O passado se foi, o futuro é incerto e o presente é um conduinte perecível ao tempo. Ele quer esquecer rótulos, esquecer de juras, esquecer de acontecimentos. Tudo tem seu preço. Às vezes a cura de alguma dor, é o esquecimento de algum sentimento. Turbilhões de coisas passam em sua memória que fazem seu coração palpitar, acelerar feito um tufão furioso. Então ele abre os olhos e enxerga a lua. Ah Lua.. Tão límpida, pura e complacente com seus anseios. Tão magnificamente bela. Abraçando a escuridão com sua luz. Então ele percebe que a luz da Lua é parecida com a sua. Ela brilha sozinha na mais escura das noites. No mais tortuosos momentos de cada um. Lá imponente em seu altar espacial, ela reina soberana até mesmo com os devaneios do Sol.

Ele pensa em mergulha e fugir dos preceitos de sua mente inquieta. Mas mergulhar seria uma fuga dos acontecimentos. Ele não é um covarde. Ele é mais forte do que pensa. Ele pensa na sua fraqueza diante os fatos, mas lembra de sua força perante sua vida. Seu corpo começa a criar uma vontade supracente de voar, mas não a olhos nus. Seu corpo está sozinho e em conflito, mas está em paz. A água do mar bate mais forte em seus pés gélidos. Ao mesmo tempo em que eles afundam lentamente na areia fofa que é torrencialmente acudida pelo mar. Mais uma vez ele olha para o céu e encontra as estrelas. Em meio à constelação de Leão, as estrelas formam o desenho de um rosto familiar. Um rosto que ele não vê há muito tempo. E vê naquele rosto algo que ele reconhece bem e sente falta. Um sorriso. Ironicamente ele sorrir, sem perceber que seu sorriso é o mesmo da imagem no céu. Então como coração calmo e a mente branda, ele se lembra de uma frase dita por sua mãe há alguns anos atrás. "Quem vai estar com você até o dia de sua morte é apenas uma pessoa. Você. E é a você que deve amar mais que tudo na vida.."
Uma onda cobre suas pernas até a altura do joelho. Ele pega seus sapatos molhados e olha mais uma vez para o céu. Na constelação de Leão ele ler nas estrelas o que ele precisava ler. Lembrou do que precisava lembrar, e sentiu o que precisava sentir. Então ele volta a caminhar com a mente vazia e o coração simploriamente estagnado. Ou seja, com a mente calma e o coração mais uma vez batendo por ele. Afinal, quem vai andar com ele até o caminho da morte, pela estrada da vida é apenas ele. E seu coração não é de ninguém, apenas dele e somente dele.

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Segunda-feira, Agosto 09, 2004


Sina

Viktor retirou seu blazer negro e encostou-se à parede de um velho prédio. Acendeu um cigarro e ficou fitando a rua, esperando. A noite estava escura, um eclipse lunar estava em andamento. A rua, deserta, talvez porque os homens, assim como os animais, sentem seus predadores.
O cigarro queimava rápido, antevia-se o fim do eclipse, o horário do encontro. A lua, quase completamente vermelha, dominava o céu limpo. Em sua mão esquerda, Viktor segurava um pedaço de ébano na forma de um cabo.
A sombra aumentava e o ar pesava cada vez mais. Quando a lua se escondeu por completo na sombra, ela apareceu. Uma imensa massa amorfa de luz se materializou no centro da rua. Ela emanava calor e bondade, além de possuir uma beleza inidentificável.
Viktor jogou o toco de seu cigarro no chão e empunhou seu cabo de ébano, fazendo uma lâmina negra. Ele não mais percebia a beleza, bondade ou calor de seus alvos. Trabalho era trabalho e ele estava se tornando um grande profissional.
A espada cai, mas não chega a atingir o necessário. Vários tentáculos de luz seguram a espada negra, que começa a sugar a luz para dentro de si, como um buraco negro. Alguns outros tentáculos miram em Viktor, aplicando um golpe em sua boca. O sangue começa a escorrer, o gosto ferroso e a dor o incomodavam, mas nada disso fazia ele largar sua espada. Mais alguns golpes, e finalmente o núcleo da massa é exposto. Um silêncio mortífero caia sobre a rua e lentamente a lua voltava a iluminar o rosto da criança que jazia morta aos pés de seu algoz.
- Bom trabalho, minha cria. A luz não pode prevalecer, o equilíbrio está mantido...
- Eu não sou cria sua, e nunca serei. Eu sirvo o equilíbrio e não as trevas.
- Pense o que quiser, você já me abraçou.
Viktor refletiu sobre as palavras que acabara de ouvir, mas não se importou. Guardou seu cabo de ébano e pegou seu paletó que estava esquecido na calçada. O gosto de sangue era o que mais incomodava, ele nunca conseguia se acostumar. Para rebater acendeu um cigarro e caminhou pela rua. Esquecer é sempre a coisa mais fácil de fazer, quando não se sabe mais o que faz...

Mas um texto do grande Doom.

Fotolog