Nem um deus. Nem um mortal

Segunda-feira, Janeiro 17, 2005


Sumir

Queria sumir por um mês. Sair da civilização. Esquecer de tudo por apenas 30 dias, como naquelas promoções de lojas de eletrodomésticos. Esquecer o som dos carros passando pela rua, o som dos passos apressados e frágeis das pessoas nas ruas. Queria sumir para não ver o cinza da cidade nem o verde do campo. Sem complicações, sem pensamentos, sem indagações, sem questionamentos que trazem mais perguntas a cada resposta.

Queria sumir para um quarto longe de tudo. Não quero nada nesse quarto ao não ser o essencial. Essencial para minha mente e para meu corpo. Mas principalmente para minha alma e para o meu coração. Quero apenas uma cama, um ventilador, uma escrivaninha, uma cadeira e uma máquina de datilografar. Uma cama para deitar e sonhar. Um ventilador para me esfriar nas noites infernais que sempre buscam você quando você some de algo. Uma escrivaninha para por os cotovelos nela, colocar a mão na cabeça e pensar. Uma cadeira, que obvio, será para sentar. E uma máquina de escrever que servirá como minha porta para outro mundo. Talvez eu devesse levar um tocador de cd para ouvir algumas músicas. Não, nada de tecnologia. Nada de computadores, dvds, rádios, sons, televisões. Nada que me lembre de onde vim, nem que me lembre o que me espera.

Um mês, trinta dias, cinco semanas, talvez seis a depender do mês. Era tudo o que eu queria. Não era tudo o que eu queria, é tudo o que eu quero. Estou cansado do ócio mecânico desse século. Cansado da estafa mental coletiva que se agrava a cada dia. Cansado de ver uma geração cair em contradição mesmo estando calada. Cansado de me ver no mesmo lugar de sempre, nas mesmas situações de sempre, nos mesmos questionamentos de sempre..De sempre? De sempre não. Há um novo, o que me incomoda, o que me intriga. Não, ele não é o elemento chave da equação que me faz querer sumir, mas com certeza é o denominador comum e o peso maior de toda a equação.

Sumindo, passaria dias a fio, sentando na escrivaninha colocando meus sentimentos e pensamentos em um papel. Ia tentar quebrar uma rocha de titânio, coberta por uma fina camada indestrutível de diamante, que por mais engraçado que pareça foi construída por mim mesmo há alguns anos. Ia tentar fazer isso só com os punhos, o que seria doloroso, mas no fim, deverás compensador. Quantas coisas poderei escrever por causa dessa pergunta inglória?Desse questionamento causador da discórdia? É difícil construir, mas eu ia destruir algo feito com tanto trabalho em tantos anos, se eu continuar por aqui.

Ah! Quero uma janela para ver o nascer e o por do sol.

Perco-me de novo, onde estava?Sim, no motivo de sumir. Né nada grandioso. Mas também nada pequeno. Né nada complicado, mas né nada simples. É só algo improvável. Ficarei horas e horas nessa janela olhando pra constelação de um certo signo. Talvez não na janela, deitado na cama. Sem lençóis, sem travesseiros, sem cobertores. A cama, o colchão, eu e o céu estrelado.

Escreverei minha pergunta na minha máquina e esperarei a pergunta, deitado na cama, olhando pro céu e ao mesmo tempo me indagando.

"Como chegou a esse ponto? Como destruir tamanha rocha que no fim das contas não foi feita sozinha nesses anos todos?¿.

Por isso eu queria sumir daqui por um mês, pois quem sabe lá eu teria alguma resposta, ou no mínimo uma luz no fim do túnel. Só um mês. Enquanto não consigo sumir, voltarei as minhas músicas metafóricas e a meu bloco de notas vazio.

Fotolog